Há exatos 20 anos, o jornal Folha Verde circulava sua edição nº 557, destacando na capa o movimento Grito do Ipiranga, que já completava 10 dias de uma mobilização iniciada em 17 de abril de 2006, com um ato modesto na pequena Ipiranga do Norte.
Em reportagem de página inteira publicada na edição que circulou em 27 de abril de 2006, o Folha Verde relata que os produtores rurais de Lucas do Rio Verde se reuniram em assembleia no auditório da Câmara de Vereadores, na manhã de sábado, 22 de abril, quando decidiram aderir ao movimento, bloqueando rodovias e fechando agências bancárias, além de impedir o carregamento de grãos nos armazéns de empresas no município.
Cumprindo a decisão, logo no início da manhã de segunda-feira, 24 de abril, a cidade foi tomada pelo movimento de tratores, caminhões e máquinas agrícolas, que foram posicionadas ao longo da Avenida Amazonas e da BR-163, formando filas imensas e chamando a atenção de quem passava pela rodovia. Para impedir a abertura das agências bancárias, os agricultores usaram correntes e cadeados. Somente na terça-feira, 25, os manifestantes liberaram a abertura dos bancos.
Logo o protesto dos produtores rurais se alastrou por outros municípios no eixo da BR-163, como Sorriso, Sinop e Nova Mutum, e não demorou para ecoar em outras regiões de Mato Grosso, como Rondonópolis, e também em outros estados, como Goiás, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Paraná.
No dia 2 de maio, o movimento ganhou a adesão dos caminhoneiros, através da União Nacional dos Caminhoneiros Autônomos (Unicam), que se reuniu com a Comissão de Gestão da Crise dos produtores rurais para definir uma pauta única de reivindicações dos dois setores, fortalecendo assim a mobilização.
E o Grito do Ipiranga ecoou em Brasília, onde o Congresso Nacional realizou audiências por meio da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural para discutir a crise no setor agrícola. As audiências aconteceram em 16 de maio, no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu secretários de Agricultura e governadores de vários estados para ouvir as reivindicações dos produtores e discutir um pacote de medidas para o setor.
Dentre as principais reivindicações levantadas pelo movimento estava a renegociação de R$ 7,7 bilhões em dívidas vencidas, que já haviam sido repactuadas entre 1995 e 2001 nos programas de securitização, de recuperação das cooperativas (Recoop) e de saneamento de ativos (Pesa).
O anúncio do tal pacote de medidas foi adiado pelo menos duas vezes, e a mobilização perdurou até junho de 2006.






























