O ano de 1985 chegou ao fim com uma taxa de inflação acumulada próxima a 300%. Como uma tentativa de acabar com a inflação crônica, o governo do presidente José Sarney decretou, no dia 28 de fevereiro de 1986, o Plano Cruzado, que estabelecia uma série de medidas: o cruzeiro foi substituído pelo cruzado, com corte de três zeros; todos os preços foram congelados; os salários, também congelados, seriam corrigidos anualmente, ou cada vez que a inflação atingisse 20% (gatilho salarial); foi extinta a correção monetária; foi criado o seguro-desemprego.
O tabelamento de preços de produtos nos supermercados foi uma das principais medidas do Plano Cruzado. Incentivada a colaborar para o sucesso do plano, a população saia às compras com a tabela da Sunab (Superintendência Nacional de Abastecimento e Preços) nas mãos e verificava se os estabelecimentos estavam respeitando a lei que congelava os preços dos produtos.
Transformados em “Fiscais do Sarney”, os consumidores denunciavam a remarcação irregular de preços pelos estabelecimentos comerciais.
Concebido dentro de uma sala de aula de 7ª série da Escola Estadual Dom Bosco, sob a coordenação da jornalista, e então professora, Vera Terezinha Faccin Carpenedo, o jornal Folha Verde também atuou como “Fiscal do Sarney” já em sua primeira edição, levada às ruas empoeiradas da pequena vila de Lucas do Rio Verde no dia 31 de maio de 1986.
Em uma matéria assinada pelos alunos Elionir, Ledamar, Marta e Sílvia, o jornal – produzido em 12 páginas A4, datilografas e xerografadas – mostrou a diferença de preço de alguns produtos nas prateleiras dos estabelecimentos, em relação ao preço fixado pela tabela do governo federal.
Em um dos supermercados da época, por exemplo, foi constatado que uma determinada marca de xampu, tabelada a 16,35 cruzados, era vendida por 21 cruzados. Noutro estabelecimento, o mesmo produto era vendido a 18 cruzados. No mesmo estabelecimento, uma marca de sabonete, embalagem de 90 gramas, cujo preço de tabela era de 1,70 cruzados, estava sendo vendida a 3,85 cruzados.
A reportagem relata ainda a atitude do proprietário de um dos estabelecimentos visitados que, ao saber que os dados coletados seriam publicados no jornal, apressou-se em colocar o preço de tabela nos produtos, recomendando à equipe de repórteres que não noticiasse o fato.
O desrespeito ao tabelamento, com a prática de preços abusivos em alguns produtos, foi característico do período no Brasil todo, e em Lucas do Rio Verde não foi diferente. Na verdade, o descumprimento da tabela pelos estabelecimentos comerciais locais até encontrava justificativa na distância dos centros produtores e distribuidores, na logística deficitária, no preço do frete, e por aí vai.
O fato é que, em todo o país, ocorriam relatos e registros de desrespeito ao tabelamento de preços, uma das razões da falência do Plano Cruzado. A inflação, em um primeiro momento, foi reduzida, o desemprego diminuiu, o poder aquisitivo da população cresceu. Porém, em poucos meses, o Plano Cruzado já apresentava problemas, dentre eles, uma crise de abastecimento. O desaparecimento de alguns produtos do mercado, ocasionado pelo aumento de consumo, gerou a cobrança de ágio, ou seja, se quisesse ter o produto, o consumidor era obrigado a pagar um valor maior que o estipulado pela tabela.
Este texto, porém, não tem a finalidade de discorrer sobre o Plano Cruzado, mas tão somente contextualizar o momento histórico em que o Folha Verde foi concebido como o “jornalzinho” da comunidade que, naquele ano, começava a dar os primeiros passos em busca da sua emancipação político-administrativa.
A propósito, a notícia da instalação do distrito de Lucas do Rio Verde e respectiva nomeação do primeiro subprefeito também foi publicada na primeira edição do “jornalzinho”, que nem nome tinha ainda.
O nome do jornal foi escolhido pela própria comunidade, após tomar contato com a primeira edição do informativo. Já nascia ali um vínculo forte daquele singelo informativo com a população a quem ele se dirigia.
O distrito se tornou município, a vila se transformou em uma bela e pujante cidade, e o Folha Verde cresceu junto, sempre registrando os momentos marcantes da história de Lucas do Rio Verde.
Neste mês de maio de 2024, ao completar 38 anos de existência, o Folha Verde encerrou o ciclo de jornal impresso e segue sua trajetória no formato eletrônico, reafirmando os compromissos assumidos em sua primeira edição, de primar pela ética, pelo respeito, pelo jornalismo de qualidade.

























