A Fundação Rio Verde lançou oficialmente, nesta quinta-feira, 28 de novembro, o Show Safra Mato Grosso 2025, que vai ocorrer de 24 a 28 de março de 2025. O evento promete muitas novidades, visando promover o desenvolvimento, inovação e integração entre os diversos atores da cadeia produtiva.
Para homenagear todos esses atores responsáveis pelo desenvolvimento da agricultura na região, resgatamos uma entrevista concedida pelo produtor rural Domingos Munaretto, que começou a plantar em Lucas do Rio Verde no ano de 1980.
“Em 1980, começamos abrir área e plantar. Naquela época a única cultura que se conhecia aqui era arroz, não se plantava outra coisa. E nós trabalhamos assim uns quatro anos, abria um pouquinho de terra e plantava arroz. Em 1983 começou a ser introduzida a cultura de soja, logo depois que o INCRA fez o projeto fundiário de assentamento. Até então, a gente plantava arroz dois a três anos e tinha que abandonar aquela terra, porque pegava a doença chamada brusone e não produzia mais. Não se tinha assistência técnica, não tinha nada, a gente plantava e produzia a partir da experiência de outros produtores que já estavam há mais tempo na região, e assim ia derrubando o cerrado, mecanizando a terra, plantando arroz, observando qual era o material que melhor se comportava na região, que adubação que se fazia, correção de solo nem se fazia para o arroz”, conta Munaretto, ao relembrar os desafios e a evolução da agricultura na região.
Vale a pena conferir a íntegra da entrevista:
ENTREVISTA
Domingos Munaretto: o futuro da nossa atividade agrícola está nas indústrias de transformação para agregar valor ao nosso produto
Comemora-se nesta sexta-feira, 28, o Dia do Agricultor e como homenagem àqueles que são responsáveis pela atividade que move a economia do município, trazemos uma entrevista com o produtor rural Domingos Munaretto. Paranaense de Cascavel, ele se fixou em Lucas do Rio Verde em 1979 e aprendeu com as dificuldades e desafios do dia a dia a praticar agricultura na região. Um pouco desta história e desta experiência é o que ele nos conta nesta entrevista.
FOLHA VERDE: O senhor já praticava agricultura no Paraná? O que o trouxe para Lucas do Rio Verde?
Munaretto: A gente trabalhava com agricultura, aí, meu pai decidiu montar uma descascadora de arroz em Cascavel e nós saímos da agricultura para trabalhar com beneficiamento de arroz. Nos anos de 1976/77, teve uma seca muito grande naquela região e não se produziu arroz. Um primo nosso morava em Nova Canaã do Norte, onde estavam começando abrir mata para plantar café e, para manter a lavoura limpa, eles plantavam arroz no meio do café, e esse arroz era vendido bem baratinho. Então, a gente trazia mudança de famílias desapropriadas pela Usina de Itaipu e, na volta, carregava arroz. Foi nessa época que conhecemos esta região de Lucas do Rio Verde. Era uma região de conflito agrário, uma grande área de terras devolutas da União e aqueles que se diziam donos da terra vendiam bem baratinho e nós, como não tínhamos dinheiro para comprar terras em outras regiões, compramos aqui três mil hectares, sem documento, sem nada, na confiança. No final de 1979, chegamos com a mudança, eu, minha esposa e duas filhas pequenas. Meus irmãos ficaram no Paraná, mantendo a atividade de beneficiamento e comércio de arroz para dar suporte financeiro pra gente aqui, porque não se podia fazer financiamento, como Lucas era uma grande região de terras devolutas, não se tinha documento e os bancos não financiavam.
FOLHA VERDE: Como era fazer agricultura aqui na época?
MUNARETTO: Em 1980, começamos abrir área e plantar. Naquela época a única cultura que se conhecia aqui era arroz, não se plantava outra coisa. E nós trabalhamos assim uns quatro anos, abria um pouquinho de terra e plantava arroz. Em 1983 começou a ser introduzida a cultura de soja, logo depois que o INCRA fez o projeto fundiário de assentamento. Até então, a gente plantava arroz dois a três anos e tinha que abandonar aquela terra, porque pegava a doença chamada brusone e não produzia mais. Não se tinha assistência técnica, não tinha nada, a gente plantava e produzia a partir da experiência de outros produtores que já estavam há mais tempo na região, e assim ia derrubando o cerrado, mecanizando a terra, plantando arroz, observando qual era o material que melhor se comportava na região, que adubação que se fazia, correção de solo nem se fazia para o arroz. No primeiro ano nós plantamos 200 hectares e a cada ano a gente abria um pouco mais. Quando o INCRA implantou o projeto fundiário e teve a desapropriação das áreas dos posseiros a gente já plantava 900 hectares de arroz.
FOLHA VERDE: Qual era a produtividade média da lavoura de arroz? Vocês conseguiam cobrir os custos de produção e ter rentabilidade?
MUNARETTO: Se produzia, em média, 30 sacas por hectare, cobria os custos, porque, na verdade, o custo era baixo, a mão de obra era toda caseira [familiar], maquinário quase não se tinha, se fazia praticamente toda a lavoura com uma máquina só, não havia problema de erva daninha, a terra era virgem, se plantava três a quatro anos sem erva daninha ou doença que incomodasse, então, o grande facilitador era que não tinha pragas também, bem depois é que começou a surgir o problema do brusone, mas não se conhecia fungicida pra ele, bem mais tarde é que surgiu um fungicida para tratar esse problema do brusone.
FOLHA VERDE: Então, em 1983, foi introduzida a cultura da soja na região e vocês foram substituindo o arroz pela soja?
MUNARETTO: Exato. Era quase uma necessidade, porque o arroz não produzia mais do que quatro safras numa mesma área. Na época, eu era sócio de uma cooperativa de Diamantino e, em 1983, a Coopervale comprou essa cooperativa e nós, então, nos associamos à Coopervale que passou a nos dar um certo direcionamento de como plantar soja, que até então não se conhecia. A cooperativa abriu uma unidade em Nova Mutum e começou a nos dar um pouco de assistência e isso facilitou um pouco.
FOLHA VERDE: Mas como era o cultivo nessa época? Havia alguma tecnologia ou era tudo muito rudimentar?
MUNARETTO: Muito rudimentar. Aplicação de calcário, por exemplo, para correção de solo, era tudo manual, tudo na pá. O tratamento de sementes se fazia dentro de um cocho, se jogava ali alguns quilos de semente e o fungicida e misturava tudo manual, aplicação de inseticida na lavoura também era tudo manual, sem proteção nenhuma, eu me intoxiquei umas quatro vezes, mas, já existia a farmácia do Tião, a gente trazia os rótulos dos inseticidas e ele já nos dava o antídoto e pronto.
FOLHA VERDE: Qual era a época ideal de plantio da soja?
MUNARETTO: A gente começava o plantio sempre depois do dia 10 de outubro, a Coopervale não deixava plantar antes, para coincidir a colheita após aquele período crítico de muita chuva, que ocorre em janeiro e fevereiro, se começava a colheita em março. Sempre na época da Páscoa era o forte das colheitas. Não se conhecia variedades de ciclo precoce, só de ciclo normal e longo. Março ainda era um mês de muita chuva, então, como a gente fazia? Não existia armazém nem secador na região, então, a gente começava a colher depois da 1 hora da tarde, se arrastava um caixote no meio da lavoura, a máquina colhia e colocava dentro daquele caixão, um grupo de pessoas já ensacava o produto e empilhava aqueles sacos ao longo da lavoura e cobria com lona, e no tempo da seca, então, se dava um jeito de escoar o produto. No tempo da chuva não entrava caminhão truque, só caminhão pequeno.
FOLHA VERDE: E como o senhor acompanhou a evolução da agricultura da região?
MUNARETTO: Tudo na base da prática. Tinha alguns agrônomos que instruíam a gente, mas prevalecia mesmo a nossa prática regional. A Coopervale veio lá do oeste do Paraná e os materiais de lá não se adaptavam bem aqui. Tinha o Instituto de Campinas, o IAC, que desenvolveu materiais que se deram bem na região, mas a cultura da soja evoluiu na região quando começaram entrar os materiais FT, do Francisco Terasawa, mas não havia campos experimentais que desenvolvessem materiais aqui, tudo vinha de Goiás e São Paulo. Ainda hoje não temos uma genética direcionada para nossa região. Veja o caso do milho, nós plantamos e produzimos muito milho, mas todos os materiais vêm de fora, não existem ainda materiais específicos para nossa região, por isso colhemos milho com tantos grãos avariados. Aqui existem vários campos de validação, mas genética não.
FOLHA VERDE: Se estamos numa das principais regiões agrícolas do país, na sua opinião, por que ninguém despertou ainda para desenvolver esses materiais genéticos aqui?
MUNARETTO: Porque é uma região nova, diferente. Sempre se falava, no passado, que aqui, uma região com quase 400 metros de altitude, não é região para produzir milho, e a gente produz milho e mostrou que é viável, mas ainda temos muito que evoluir. Veja aquela pesquisa da UFMT que divulgou que nós produtores estamos usando produtos cancerígenos que deixam resíduos até no leite materno, mas essa mesma UFMT nunca veio aqui desenvolver pesquisa pra ajudar a resolver os problemas dos produtores. Hoje se fala muito em biotecnologia, mas somos nós produtores que temos que ir atrás, porque as universidades não trazem pra nós as tecnologias. Na comercialização, por exemplo, até por volta de 2004, nunca se vendia no mercado futuro de grãos, nunca se travava valor em dólar, nós, com nossos prejuízos, fomos aprendendo e nos organizando e fomos atrás desses mecanismos. No governo Collor, nós produtores quebramos. Nós financiávamos nossas atividades com taxas calculadas com base no índice da poupança e, com o Plano Collor, de um dia pra outro, o índice variou em 84%, e nós pagamos essa conta. Depois, o governo Fernando Henrique fez a secutirização das dívidas, mas nós não fomos isentados dessa diferença e tivemos que pagar. Naquela mesma época as multinacionais começaram a entrar na região e financiar os produtores, mas todas sangrando a gente. Hoje mesmo, a rentabilidade do produtor ainda é baixa, um ano porque dá seca, outro ano porque chove muito, ou porque o preço se achata no mercado, infelizmente a atividade agrícola é assim, a diferença é que hoje temos ferramentas que nos ajudam a vencer esses desafios, mas o custo ainda é muito alto, vivemos outras épocas, mas as dificuldades sempre existem. Nesta safra mesmo estamos com uma colheita farta de milho, nunca se colheu tanto milho na região, mas quanto o mercado nos oferece? Doze reais o saco de milho e o nosso custo é 15. É uma turbulência que precisamos aprender a atravessar, não podemos jogar fora nossa mercadoria com prejuízo, precisamos estar antenados com o mercado, a informação é nosso maior trunfo hoje, tem que saber plantar direitinho, mas tem que saber também comercializar.
FOLHA VERDE: Que outros desafios o produtor rural encontra hoje?
MUNARETTO: O problema da logística todo ano está aumentando e a gente já embute o custo dessa logística no nosso custo de produção, ninguém transporta soja para o Porto de Santos ou Paranaguá por menos de 300 reais a tonelada, por isso a soja custa pra nós em torno de 15 dólares o saco e o custo para produzir um saco de milho é de 15 reais.
FOLHA VERDE: Apesar dos desafios e dificuldades, a região teve um desenvolvimento relativamente rápido e se destaca de outras regiões do país. A que o senhor atribui isso?
MUNARETTO: Nós somos beneficiários de estarmos numa região de terras vastas, planas, boas e nossa maior riqueza aqui se chama água, não temos problema de estiagem, temos um custo um tanto elevado por estarmos distantes dos portos, mas nossa atividade agrícola se torna segura por conta das condições climáticas privilegiadas. Para vencermos esses desafios de logística, custo do frete, precisamos agregar valor à nossa atividade, como essa usina de etanol de milho que está se instalando no município, as agroindústrias são nossa saída, nós agricultores tínhamos que nos unir mais em grupos e montar essas agroindústrias, como aconteceu com a Ema Alimentos no passado, que depois veio a Sadia e comprou o projeto e instalou o complexo industrial que está aí hoje, e nós temos que partir pra isso, agregar valor à nossa produção. E ninguém vai trazer isso pra nós, somos nós que precisamos nos organizar em grupos, unir forças e buscar, construir, instalar essas agroindústrias. Uma pessoa não consegue montar uma usina de etanol, mas um grupo de 10 a 15 pessoas consegue, então, temos que partir pra isso, unir forças e construir essas indústrias de transformação, esse é o caminho.
FOLHA VERDE: Uma mensagem aos agricultores:
MUNARETTO: Temos que agradecer, porque acredito que cada um de nós conseguiu realizar aquilo que planejou lá atrás, temos que nos contar felizes, temos muito campo a percorrer, mas nosso sentimento deve ser de gratidão por estarmos numa região que nos oferece tanta riqueza para produzir.




























