1982

Da luta pela terra no Rio Grande do Sul ao desafio de iniciar o cultivo agrícola em Lucas do Rio Verde

Saul Marchiori, que veio de Encruzilhada Natalino em dezembro de 1981, conta que só em novembro de 1982 foi possível iniciar o plantio da primeira safra
A série 1982 foi filmada e editada por Kafeinados, é apresentada por Yankee Ferreira e Vera Faccin Carpenedo, em cenário de Caique Santana

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Nesta semana do aniversário de Lucas do Rio Verde, a rádio Agro FM, em coprodução com o jornal Folha Verde, está veiculando uma série de programas especiais em que pioneiros contam a história do município.

O primeiro episódio foi ao ar na segunda-feira, 5, e teve como entrevistado o gaúcho Saul Marchiori, que conta como foi sua vinda para cá e as dificuldades enfrentadas pelas primeiras famílias que se fixaram em solo luverdense.

Para contextualizar essa história, é importante lançar um olhar para o mês de julho de 1970, quando o então presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, lançou o Plano de Integração Nacional, cujo objetivo primordial era promover a ocupação dos vazios demográficos das regiões Centro-Oeste e Amazônica.

Planejada para interligar as regiões Norte e Sul do país, rodovia Cuiabá/Santarém – uma extensão da BR-163 – foi incluída no PIN e sua construção estendeu-se de 1971 a 1976. Como parte do plano, agricultores sulistas foram atraídos por projetos de colonização incentivados pelo governo, iniciando a abertura de novas fronteiras agrícolas.

Foi assim que muitas famílias adquiriram posses e se fixaram na região do Rio Verde entre os anos de 1976 e 1980.

Enquanto, lideranças ligadas a sindicatos e igrejas começavam articular, no Rio Grande do Sul, um movimento de luta pela reforma agrária, mobilizando pequenos agricultores e alguns remanescentes da demarcação da reserva indígena ou da construção de barragens na região norte do estado.

Assim, em dezembro de 1980, foi montado o acampamento de Encruzilhada Natalino, no município de Ronda Alta. Em pouco tempo, cerca de 600 famílias, aproximadamente três mil pessoas, estavam acampadas à beira da estrada.

Saul Marchiori era um dos principais líderes do movimento. Ele conta que inúmeras foram as idas a Porto Alegre para reuniões e audiências no Incra, Assembleia Legislativa e governo do Estado. “Eu queria terra. Eu queria trabalhar. Eu queria produzir e desenvolver”, sublinha Saul ao revelar que na época ele não sabia que o MST era quem estava “por trás” do acampamento.

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O movimento tomava proporções que o governo do Rio Grande do Sul já não conseguia conter. Foi quando o governo federal decidiu intervir, enviando para o acampamento o Coronel Curió, que ofereceu aos colonos a possibilidade de serem assentados em projetos de colonização do governo federal na Bahia, Acre, Roraima ou Mato Grosso.

Saul relata que teve muitas conversas com o Coronel Curió e quando se inscreveu para vira Mato Grosso é que passou a compreender quem controlava o acampamento. “Tive que sair fugido de lá, queriam me linchar, não voltei mais nem pra pegar minhas coisas”.

Das 600 famílias acampadas, 203 aceitaram a proposta de transferência para Mato Grosso. Assim, o governo federal, por meio do Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra), criou o Projeto Especial de Assentamento Lucas do Rio Verde, com lotes de 200 hectares para cada família.

“Em dezembro de 1981 veio a primeira leva, e nós já viemos junto. E aí começamos o tal do Lucas do Rio Verde. A gente nem sabia o motivo do nome da cidade, não tinha cidade, pertencia a Diamantino, e nós viemos, de cara, sem dinheiro. No meu caso, eu tinha um salário-mínimo, a mulher e um filho”, revela Saul ao recordar o drama dos primeiros tempos em solo mato-grossense.

Embora o Incra desse assistência às famílias e até avalizasse a tomada de financiamento junto ao Banco do Brasil de Diamantino, o plantio da lavoura teve início quase um ano depois de os assentados tomarem posse da terra, porque o período de plantio na região iniciava em novembro.

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Conforme relata Saul, naquele primeiro ano, as famílias recebiam do governo federal uma cesta básica, o que era insuficiente para manter a sobrevivência. A solução era buscar trabalho em fazendas da região. Durante quase todo o ano de 1982, Saul ia a Sorriso trabalhar, ficava até 15 dias sem voltar para casa.

“Depois de Sorriso, eu trabalhei de funcionário para o seu Ivo e o José Dotto. Eles tinham trator, maquinário, eu trabalhei um ano pra eles gradear e plantar um pedacinho pra mim. Eu não tinha dinheiro pra pagar hora de trator, então eu pagava em serviço”, conta Saul ao recordar o desafio que foi abrir o cerrado e cultivar sua terra.

“Aí, nós sem experiência de cerrado, de plantar arroz, meu Deus do céu! Não colhemos nada, gente! Colhemos seis a sete sacos por hectare. Teve dois ou três que colheram de 20 a 30 sacos por hectare. O Incra tinha um engenheiro agrônomo pra dar assistência pra nós, mas ele também não tinha muito conhecimento do cerrado. Na época não tinha nada, não tinha plantação aqui”.

Sobre as expectativas das primeiras famílias quanto ao futuro da cidade, que foi fundada oficialmente, em 5 de agosto de 1982, Saul conta que nem de longe sonhavam com o desenvolvimento que se conhece hoje.

“A gente imaginava que ia se criar uma corrutela, mas jamais imaginava que chegaria ao que é hoje, nem o mais otimista poderia sonhar com isso, jamais! Lucas do Rio Verde deve isso tudo à agricultura, não fosse a agricultura isso tudo aqui não existiria. Hoje pra nós é um orgulho ver isso, só temos que agradecer!”

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